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A AIDS e o preconceito na cadeira do dentista – Parte II

Hoje recebi um e-mail em resposta a um contato que fiz e ao post “A AIDS e o preconceito na cadeira do dentista“, que publiquei ontem aqui no inovaVOX.com. O e-mail foi escrito por nada mais, nada menos, que a Dra. Elaine Reis Alves, autora do livro “Profissionais de saúde: vivendo e convivendo com HIV/aids” (link para compra no final deste post), ao qual encomendei dois exemplares, e autora do artigo “A discriminação ao paciente portador de HIV/Aids“, publicado no Guia Odonto.

Atenciosa, Dra. Elaine esclareceu algumas dúvidas que eu tinha antes de escrever o artigo de ontem, e me autorizou publicá-lo aqui. Alterei o e-mail da Dra. Elaine somente no que diz respeito aos nomes dos envolvidos, afim de manter o sigilo e a privacidade de todos, inclusive da Dra. AIDS, que assim como no artigo anterior, também não foi informado a Dra Elaine. Ok? Vamos a ele:

Olá Sampson,

Desculpe a demora em responder. Eu vi seu e-mail, sim, mas, como estava fora de São Paulo, deixei para responder com mais calma. Também já vi sua postagem no blog. Bem, vamos lá!

Mesmo sabendo que isso ainda acontece muito, fiquei chocada com o seu relato. Eu ficaria horas conversando com você, mas, infelizmente, pela internet…

Se fosse comigo, eu a processaria sim, e por vários motivos, mas todos por falta de ética profissional.

1. Por ser profissional de saúde, ela tem compromisso e obrigação de manter sigilo sobre seus pacientes, o que foi quebrado, já que ela comentou sobre Dona Vitória com outras pessoas. Jamais ela poderia ter comentado com uma amiga! Isto é imperdoável! – Para mim, essa foi a falta mais grave que ela cometeu, mas é muuuuuuito, muuuuito grave mesmo.

2. Ela tem obrigação de usar equipamento de biossegurança (óculos, máscara, luva, avental, gorro etc.) para todo e qualquer procedimento e para todo e qualquer paciente. Ela também tem obrigação de manter todo seu equipamento esterilizado (inclusive proteção para caneta odontológica, sugador, espelho e tudo mais) e tudo deve ser trocado à cada atendimento. São barreiras de segurança para ela e para os pacientes atendidos, e o problema maior não é aids, mas hepatites e tuberculose entre outros.

3. O paciente, no caso Dona Vitória, não tem nenhuma obrigação de informar que é portador de hiv/aids. Esse é um direito constituído legalmente. Até porque, o dentista não precisa saber disso para se proteger, a proteção é obrigação dele. Informar o dentista pode ser positivo no sentido de que o profissional será mais zeloso emocionalmente e não tecnicamente.

4. Induzir Maria (sobrinha da Dona Vitória) a abandonar o tratamento pode gerar outro processo: por preconceito. Nenhum profissional de saúde pode se negar a atender uma pessoa porque ela tem, ou porque pode ter hiv/aids, ou qualquer outra patologia.

5. Se ela não estava usando equipamento de biossegurança, isso é de responsabilidade dela. Também pode ser processada por não proteger seus pacientes e os colocar em risco, inclusive Dona Vitória que poderia ter sido infectada por outros vírus realmente resistentes.

6. Se ela não se lembra se estava ou não usando óculos, como pode se lembrar que uma gota de sangue entrou em seus olhos? Não faz sentido.

7. Jovem ou não, esta dentista está completamente despreparada, desinformada e desatualizada para exercer a profissão. O Código de ética Odontológica exige informação e atualização científica e, informar-se sobre aids, é mais do que obrigação, uma vez que o assunto não é novo, já tem 27 anos! O comentário sobre a tatuagem é prova da desqualificação dessa profissional.

Nota do inovaVOX.com: Não relatei no post anterior sobre a tatuagem. Dona Vitória tem uma tatuagem e Dra. AIDS comentou sobre ela com uma amiga.

8. Para qualquer profissional de saúde, se for o caso, o que importa é que o paciente é portador do vírus e precisa ser atendido com os cuidados necessários para o seu (do paciente) bem-estar. Como ele se infectou NÃO é DA CONTA DE NINGUéM!

Quanto as suas perguntas: essa dentista NÃO agiu de forma correta, ela agiu e está agindo com completa falta de ética e pode ser processada por isso; Quanto ao não uso da máscara e óculos, ela tem razão sim, em se preocupar. Mas, não porque atendeu Dona Vitória. Ela deve se preocupar porque toda vez que atendeu desprotegida correu riscos de infecção com hepatites e tuberculose, que são muito mais perigosos e mais fáceis de infecção do que o hiv.

Enfim, como pode ver, Dona Vitória tem a faca e o queijo na mão pra colocá-la em maus lençóis. Se não pretende processá-la (sorte dela! porque seria um caso perdido para ela), ao menos, alguém deve ir lá falar com ela e mostrar a indignação de vocês e as atitudes dela, já que ela não tem consciência de sua falta de ética.

Quanto a esse e-mail-resposta, fique à vontade para publicá-lo, mostrar para a dentista e para qualquer pessoa (paciente ou profissional). Ao menos estarão informados. O meu nome também pode ser divulgado, não há porque manter sigilo.

Que bom que comprou o livro, fico envaidecida. Estou à sua disposição para quaisquer esclarecimentos que precisar, mesmo antes, durante e depois de ler o livro. (rs).

Felicidades para Dona Vitória, sua sobrinha Maria e você. Não permitam que as pessoas provoquem sofrimentos em vocês.

Grande abraço e muito prazer em conhecê-lo! Espero que mantenha contato, eu gostaria muito.

Elaine Reis Alves

Dra. Elaine, obrigado pela atenção, sei o quanto uma pessoa como a senhora é cheia de compromissos (basta ler um pouco do seu currículo para saber disso), dedicar parte do seu dia em esclarecer minhas dúvidas e prestar este serviço a todos os que acompanham este blog, prova o quão
é profissional dedicada. Novamente, muito obrigado.

A você leitor do inovaVOX.com, espero que este post lhe tenha sido útil de alguma maneira. O recado que deixo é que devemos fugir deste vírus, sim! sempre! mas não das pessoas que o tem. Procure se informar desta e de outras doenças, para não fazer como a Dra. AIDS, que infectada pelo vírus do preconceito, feriu a golpes de ignorância o sentimento alheio.

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Saiba um pouco mais sobre o assunto, adquira o livro “Profissionais de saúde: vivendo e convivendo com HIV/aids” na Relativa, direto na Editora Santos ou, para que mora em Recife (ou não), na Livraria Nota 10 (nota 1000 em atendimento!!!) através do telefone (81) 3227.2010/3228.2398, falar com o Sr. Rômulo, Sr. Rui ou qualquer um que atender. Se não tiver o livro eles mandam buscar!

Dos dois exemplares que encomendei ao Sr. Rômulo, um irei doar a Dra. AIDS (espero que ela aceite, ao menos isso) e o outro irei ler e presentear Dona Vitória.


Categorised as: Outros


4 Comments

  1. [...] UPDATE: Continue lendo sobre o assunto: A AIDS e o preconceito na cadeira do dentista – Parte II [...]

  2. Caroline Fonseca Guedes disse:

    Citarei esse fato no meu seminário!

  3. Alexandre Antonio de Lima disse:

    Parabéns pela história citada…
    Farei uma apresentação envolvendo a ética dos Cirurgiões Dentistas frente a uma paciente portador de HIV…
    Tenho certeza que a sua história vai fazer com que muitos dos meus colegar encherguem o paciente de uma outra forma…

  4. Opa Alexandre, seria legal se você dissesse aqui como foi a sua apresentação. Abraços e volte sempre.

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